28.12.09

Moacyr Scliar e a indiferença dos Moradores de Rua

Não é de hoje que o jornal Zero Hora, através de seus repórteres e colunistas, emite opiniões equivocadas sobre a população de rua de Porto Alegre. Dessa vez, foi um texto de Moacyr Scliar no caderno Donna de 27/12/2009 que me chamou a atenção (Abaixo, texto na íntegra e link para site ZH). Do alto de seu discernimento engaiolado por um carro, ele fala o que julga ser a verdade sobre as ruas. O texto tem como destaque inicial a seguinte frase: “Morar na rua é opção e resulta, sobretudo, de uma vida infeliz”. Parece que dizendo isso desconhece um dado importante, divulgado pelo Ministério das Cidades (baseado em uma pesquisa da Fundação João Pinheiro), de que o déficit habitacional no país é de 8 milhões de moradias, e que um dos problemas principais disso é a baixa renda familiar. Ainda assim, ele não ignora as estatísticas.

Primeiro Scliar utiliza um número divulgado pela FASC de que, em Porto Alegre, há cerca de 1.200 moradores de rua. Ora, qualquer observador mais atento (até mesmo de dentro do seu confortável carro), sabe que esse número é uma estimativa muito distante da realidade. Uma conversa com qualquer servidor da FASC, responsável por essas pesquisas (como a que fiz em 2007 enquanto escrevia uma reportagem sobre o tema), esclareceria que a população de rua é algo muito mais complexo do que simples números. Segundo, utiliza a chancela do livre arbítrio para afirmar que quem mora na rua o faz por opção, como resultado de uma vida infeliz. Infelicidade que, aliás, ele não define. O discurso de que alguém mora na rua por opção faz parte do mesmo pacote opinativo dos que dizem que desempregado é vagabundo, já que trabalho não falta.

Scliar vai além. Diz que existe uma condição básica para quem vive embaixo de viadutos (sim, já que a impressão que o colunista de ZH passa é de que moradores de rua só vivem nos viadutos, como na música francesa que inicia o texto). Para ele, é necessário ser indiferente. Sim! Moradores de rua precisam ser indiferentes, já que “para essas pessoas, aquilo que incomoda a classe média em absoluto não conta”. E daí ele segue, falando da falta de privacidade e excesso de barulhos, fatores que seriam enormes empecilhos para a vida que nós, classe média, levamos. Mas não eles, moradores de rua, já que têm essa magnífica qualidade, a indiferença, e outra ainda melhor, o livre arbítrio, pois puderam escolher morar na rua. Indispensável falar da necessária e relevante observação sobre o que, além da indiferença, ajuda os moradores de rua a dormir. Para ele “a cachaça atua como um sonífero poderoso”. Dizendo isso, parece que fez uma pesquisa pessoal e descobriu que absolutamente todos os moradores de rua bebem cachaça. Interessante.

Nós, pobre classe média, não somos tão evoluídos ao ponto de abrir mão da nossa confortável vida e escolher morar na rua. Mesmo tendo, muitas vezes, vidas infelizes, famílias destruídas, problemas de auto-estima, o que fazemos, nós os egoístas, é ir sofrer em Paris. É de lá que trazemos nosso aguçado olhar para, sem ser indiferente, perceber o que se passa embaixo dos viadutos. O mais interessante é que Moacyr Scliar consegue perceber todas essas coisas de dentro de seu carro! Não precisou sequer conversar com um morador de rua.

Se tivesse saído do carro, ele poderia ter conhecido a Dona Maria, uma senhora de seus 70 anos que vende panos de prato na Avenida Protásio Alves e não mora embaixo de um viaduto. Ela dorme na rua há alguns meses, pois o casebre onde morava, na periferia de Viamão, foi destruído pela chuva. Construído em área irregular, a prefeitura da cidade não deixou que ela o reerguesse. Solução: Dona Maria “escolheu” morar na rua. Será que classifico isso como infelicidade?

Mas e por que ela não vai para um albergue? Albergues são locais para dormir, e não morar (em Porto Alegre há apenas um que funciona durante o dia, a Casa de Convivência, e tem 70 vagas diárias). Aceitam um número limite de pessoas, que começam a fazer fila nos seus portões muito antes das 18h. Porto Alegre não tem leitos suficientes para o número real de moradores de rua da cidade. Muitos antes do sol raiar é preciso sair. E ainda, para completar a lista de facilidades, não se pode freqüentar o mesmo estabelecimento por muito tempo, variando de 15 a 30 dias o tempo de permanência. Foi por isso que, voluntariamente, Dona Maria “escolheu” morar na rua, embaixo das marquises, e não dos viadutos.

Afinal, quem é indiferente à realidade? Moradores de rua e sua escolha “voluntária” de existir bravamente onde lhes é possível, ou os observadores da classe média?

Thais Fernandes - Jornalista
(thaisfernandes67@yahoo.com.br)

Texto de Moacyr Scliar:
http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/donna/19,136,2757671,Moacyr-Scliar-A-vida-sob-os-viadutos.html

2 Comentários:

Blogger Dunia el Hayed disse...

Acredito que Moacyr Scliar não desceu do carro para falar com algum morador de rua devido a algum dos pudores olfativos que acometem as pessoas abastecidas por tecnologia.

Hoje mesmo conversei com um amigo que mora viveu em situação de rua por alguns anos. Faz poucos meses que ele conseguiu um lugar num bom abrigo ali na Bonja.

Adriano é paulista e, após perder mulher e filhos num acidente, ele mesmo tentou partir deste mundo. Nunca deixou de lutar após acordar com vida. Sempre que o vejo ele está fazendo algum curso produtivo.
Foi aos debates da Conferência Mundial sobre Desenvolvimento de Cidades, aqui em Porto Alegre, e colocou para os engravatados todas as coisas que você, Taís colocou aqui em linhas gerais.

Li no site do CMI que este evento (assim como todos do mesmo tipo) são estratégias neoliberais, mas eu pergunto: quando e onde o Adriano - ou outro legítimo representante dos 'infelizes' que 'optam' por morar nas ruas - poria encontrar tantos 'poderosos' e lhes falar da verdade?

E se os dados utilizados para quantificar os moradores de rua, da FASC, são inexatos, será mesmo que negativizando a imagem desta instituição que estaremos fazendo algo de útil por eles?

Adriano está cadastrado na FASC, e os cursos que fez e que faz (incluindo o de manutenção predial, seu orgulho no momento) possuem ajuda de transporte e de custo, para que possam estar sobre os pés com a cabeça nutrida para poder pensar.

Se alguém aqui sente-se propenso a 'pegar junto' e não sabe como, quem sabe o melhor é pegar algum morador, como a dona Maria, e levá-la ali no grupo de Convivência Ilê Mulher, sediado próximo à Farrapos (Gaspar Martins, 216), ou na própria FASC (Andradas, 680/3º andar), sem muita pena ou pudores estéticos. É que a compaixão se diferencia - e muito - da piedade que nos leva a falar e falar sobre algo que não nos sentimos predispostos a trazer perto do rosto.

É ACREDITAR que há algo a ser feito, no nosso particular, usando as instituições, para benefício de outros particulares, com o intuito de propagar pela carne em tempo real o que tanto desejamos em discurso virtual.

E também, como mesmo coloca o Adriano, é preciso querer transformar, e aprender a se orientar.

30.12.09

 
Blogger Kamyla Joanna disse...

Fiquei completamente embriagada de saber que alguém teve espaço para publicar tamanha INSENSATEZ.

mas vocês (Thais e Dunia) souberam explorar muito bem o discurso burguesinho, como de uma cegueira voluntária, do Moacyr Scliar.

parabéns meninas!

10.1.10

 

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